Visita do Papa reforça as raízes católicas do Uruguai

Às vésperas da chegada do Papa à América Latina, Guzmán Carriquiry, que já foi embaixador do Uruguai na Santa Sé, fez algumas reflexões sobre essa viagem tão aguardada. Ele destaca que o povo latino-americano sempre acolheu os papas “de braços abertos, com afeto e devoção”. Para ele, a primeira viagem do Papa Leão XIV à região não se resume a visitar apenas três países — Uruguai, Argentina e Peru —, mas representa uma oportunidade de renovar a esperança e reacender a fé em um continente que enfrenta diversos desafios sociais.

De 6 a 17 de novembro, o Papa encontrará uma Igreja e um povo prontos para se reenergizar. Carriquiry, que tem um vasto conhecimento da América Latina e da Santa Sé, acredita que o início da jornada no Uruguai não é por acaso. Ele ressalta que a tradição católica do país está profundamente enraizada nas suas origens. Um momento importante da visita será no dia 8 de novembro, durante uma celebração eucarística em Florida, perto do Santuário de Nossa Senhora dos Trinta e Três, padroeira do Uruguai. Essa pequena imagem de Maria, com raízes na tradição guarani, é muito querida pelos uruguaios e está ligada à luta pela independência do país.

A história de Nossa Senhora dos Trinta e Três é especialmente significativa, pois acompanhou os líderes na luta pela independência em 1825. Carriquiry comenta que essa imagem tem sido uma presença constante na vida dos uruguaios, ajudando a moldar sua identidade espiritual. Para ele, o Papa iniciar sua visita diante dessa imagem é uma chance única de redescobrir a memória espiritual do Uruguai e trazer à tona questões sobre a fé que ainda são relevantes nos dias de hoje.

No entanto, a visita do Papa também traz à tona um desafio especial: o Uruguai é um dos países mais secularizados da América Latina. Desde o final do século XIX, o país passou por um processo de secularização significativo, o que resultou em uma separação crescente entre a vida pública e a tradição religiosa. Carriquiry observa que essa mudança não apenas diminuiu a presença da Igreja, mas também sufocou as questões religiosas em muitos setores, especialmente entre as classes trabalhadoras.

Ele lembra da descrição feita pelo cardeal Daniel Sturla sobre a Igreja em Montevidéu: “Minha Igreja em Montevidéu é uma Igreja pobre, livre, pequena; muito pequena, muito pequena”. Essa afirmação revela a fragilidade dessa comunidade e a necessidade de renovar o Evangelho em um contexto onde a prática religiosa está em declínio. Carriquiry vê na visita do Papa uma oportunidade para que os uruguaios se reconectem com suas raízes cristãs e entendam como essas raízes podem enriquecer a vida moderna.

A celebração em Florida pode ser um momento crucial para resgatar esse legado e trazê-lo à consciência do povo. O ex-embaixador espera que a presença do Papa ajude a tradição católica a tocar os corações e reacender a fé entre os uruguaios. Durante seus encontros com as comunidades da América Latina, Carriquiry destaca que o Papa enfrentará dois grandes desafios: colocar Jesus Cristo novamente no centro da vida das pessoas e abordar as feridas sociais que afetam o continente.

O primeiro desafio é renovar o encontro com Jesus, que é visto como o “Salvador, Senhor da História”. Ele acredita que a piedade popular é uma riqueza que a Igreja deve acompanhar e evangelizar, especialmente em lugares como o Peru, onde a fé está incorporada no cotidiano. A ideia não é apenas preservar tradições, mas tornar a fé uma fonte de vida nova e um compromisso para as famílias e comunidades.

Por outro lado, a realidade social na América Latina não pode ser ignorada. Carriquiry aponta que quase metade dos trabalhadores na região está na economia informal e enfrenta condições difíceis. Essa situação é uma preocupação constante, que deve andar lado a lado com a mensagem do Evangelho. A Igreja tem um papel importante em defender a dignidade humana e promover uma sociedade mais justa. Para Carriquiry, essa missão deve ser fundamentada no anúncio de Cristo.

De forma leve, podemos dizer que essa viagem do Papa, passando pelo Uruguai, Argentina e Peru, é uma chance de renovar a esperança e fortalecer os laços entre a fé e o dia a dia das pessoas. Cada país tem seus próprios desafios, mas todos compartilham a necessidade de reavivar o Evangelho em meio a mudanças significativas. A visita ao Santuário de Nossa Senhora dos Trinta e Três será um convite para olhar para o futuro, refletindo sobre como esse legado pode tocar as novas gerações. Carriquiry, ao final, expressa sua confiança na missão da Igreja, ressaltando o entusiasmo por falar sobre a América Latina.

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João Ribeiro