No Brasil, a doação de órgãos é um tema que levanta muitas questões. Apesar de sermos um exemplo mundial em transplantes, o que impede avanços nessa área é a recusa das famílias, que acontece em cerca de 45% dos casos. Mas o que a Igreja diz sobre isso?
O Padre Mário Marcelo Coelho, que é professor de Teologia Moral e Bioética, compartilha que a Igreja considera a doação de órgãos como um enorme ato de amor e serviço à vida. Segundo ele, a doação é aceita moralmente desde que os riscos para o doador sejam proporcionais aos benefícios para quem recebe o órgão e que não cause a morte do doador.
A doação pode ser feita de duas formas: de um cadáver ou de uma pessoa viva. Quando se trata de um doador vivo, a Igreja defende que a saúde e a integridade do doador precisam ser protegidas. Afinal, doar não deve colocar a vida de ninguém em risco. Um detalhe que costuma passar despercebido é que a doação deve ser feita com solidariedade, ou seja, cada um deve estar disposto a dar algo de si para ajudar o próximo.
O Catecismo da Igreja Católica é bem claro sobre isso: a doação deve ser moralmente aceitável, o que significa que os riscos para o doador precisam ser menores do que os benefícios para o receptor. A Igreja também se baseia em critérios éticos e científicos para garantir a legitimidade da doação, como a confirmação da morte encefálica.
Em relação ao comércio de órgãos, a posição da Igreja é firme. Ela se opõe a qualquer forma de venda e pede que a distribuição dos órgãos siga critérios justos, sem discriminação por idade ou condição socioeconômica. O Padre Mário destaca a importância de respeitar a vontade do doador, que deve ser clara e expressa em vida, ou o consentimento da família. A conscientização sobre a doação altruísta é essencial e deve ser promovida na sociedade.
Um aspecto interessante que surge nas conversas sobre doação é a crença na ressurreição. Algumas pessoas se perguntam se a remoção de órgãos poderia afetar essa crença. O Padre Mário esclarece que a ressurreição da carne não é apenas uma questão física, mas sim a representação da pessoa como um todo. Portanto, ele afirma que a doação de órgãos não impede a vida eterna, pois a preocupação maior deve ser com a ressurreição espiritual e moral. Doar, então, é visto como um ato de caridade, que não deve ser visto como algo negativo, mas sim como uma forma de amar ao próximo.